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ARTIGO DE OPINIÃO: "A beleza e a surpresa da Taça de Portugal", por Ricardo Bragança Silveira

 


Ainda estou a tentar arrumar por dentro o que se passou no domingo passado.


Há jogos que se perdem e pronto.


E há jogos que nos atravessam — não pela derrota em si, mas pelo que revelam sobre o caminho, sobre o desgaste, sobre a alma de uma equipa que deu tudo até não ter mais nada para dar. Esta final foi isso: um espelho duro, mas honesto.


O Sporting chegou ao Jamor com a alma cheia, mas com o corpo gasto. Foi uma época longa, intensa, vivida sempre no limite, sempre com a identidade que o Rui Borges trouxe — aquela mistura tão nossa de coragem, criatividade, improviso e risco que baptizámos, com orgulho e humor, de Tiki‑Tasca. Jogámos como quem acredita, como quem quer, como quem sabe que o futebol também é alegria. E isso ninguém nos tira.

Mas no domingo… no domingo já não havia pernas. E quando as pernas não respondem, o coração tenta compensar, mas não chega. O Sporting pagou caro por meses de entrega total, por jogos em que fomos ao limite, por uma época em que a equipa se reinventou, cresceu, surpreendeu e fez-nos sonhar. A verdade é simples e dura: chegámos à final sem o combustível necessário para a última viagem.


E do outro lado estava o Torreense, que fez aquilo que as grandes histórias pedem: acreditou mais, correu mais, quis mais.



A vitória deles foi épica, daquelas que ficam gravadas para sempre na identidade de um clube.Foram, sem rodeios, a única equipa que realmente quis ganhar aquela final.E isso merece ser dito com respeito, sem desculpas, sem azedume.Eles quiseram mais. Eles foram mais. Eles ganharam.Mas nada disto — absolutamente nada — belisca a minha fé no Sporting.Porque a fé não se mede em finais ganhas ou perdidas.Mede-se no caminho, na forma como se joga, na forma como se cresce, na forma como se honra a camisola.E esta época foi um hino ao que o Sporting pode ser: competitivo, vibrante, apaixonado, cheio de futuro.O trabalho do Rui Borges devolveu-nos orgulho, devolveu-nos identidade, devolveu-nos a sensação de que o Sporting está vivo, forte e a construir algo maior do que um resultado.O que me custa — e custa mesmo — não é a derrota.

É o que se passou nas bancadas.Não há frustração que justifique insultar famílias.Não há tristeza que legitime apontar o dedo a mulheres, crianças, pais e mães que estavam ali apenas para apoiar quem amam.Isso não é Sporting.Isso não é futebol.Isso não é humanidade.O clube é maior do que um momento de raiva.Maior do que um resultado.Maior do que a incapacidade momentânea de aceitar a dor.E por isso, sim, dói.Dói porque queríamos mais, porque acreditávamos, porque esta equipa nos fez sonhar como há muito não sonhávamos.Dói porque vimos comportamentos que não representam quem somos, nem quem queremos ser.Dói porque o futebol é emoção, mas nunca pode ser desumanização.Ainda assim, seguimos.Seguimos porque o Sporting não acaba numa final perdida.Seguimos porque esta época mostrou-nos que há um caminho, uma ideia, uma alma.Seguimos porque o Rui Borges e a sua Tiki‑Tasca devolveram-nos algo que não se compra: orgulho.Seguimos porque este grupo merece ser aplaudido, não apedrejado.E seguimos, acima de tudo, porque a fé continua intacta.E quando a fé resiste à derrota, é sinal de que o futuro está à porta.O Sporting perdeu uma final.Mas o futuro será risonho.E isso vale mais do que qualquer taça,

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